A ascensão e queda do USD
A ascensão e queda do USD?
Uma moeda de reserva é aquela que é aceite em todo o mundo para transações e poupanças, funcionando como o bloco fundamental para os mercados de capitais e economias globais.
O país que detém o poder de imprimir a moeda primária do mundo encontra-se numa posição de força extraordinária, usufruindo da capacidade de pedir emprestado em excesso e a taxas mais baixas do que outras nações. Contudo, a história ensina-nos que nenhum império ou moeda dura para sempre, e o declínio deste estatuto é frequentemente traumático para o país que o detém.
A história das moedas de reserva nos últimos 500 anos segue o "Grande Ciclo" de três impérios principais: o holandês, o britânico e o americano. A evolução começou com a Ascensão Holandesa no século XVII.
Após conquistarem a independência de Espanha, os holandeses desenvolveram o sistema educativo e tecnológico mais avançado da época, inventando o capitalismo moderno e a primeira empresa multinacional, a Companhia Holandesa das Índias Orientais. O florim holandês tornou-se a primeira moeda de reserva mundial, apoiado pela estabilidade monetária do Banco de Amesterdão. No entanto, o sucesso gerou as sementes do declínio. À medida que se tornaram ricos, os holandeses ficaram menos competitivos, aumentaram o endividamento e viram a sua primazia naval ser desafiada pela Grã-Bretanha. A derrota na Quarta Guerra Anglo-Holandesa e uma corrida bancária ao Banco de Amesterdão marcaram o fim do florim como reserva mundial.
O testemunho passou para o Império Britânico e para a libra esterlina. A Grã-Bretanha seguiu o script clássico: investiu em educação, liderou a Revolução Industrial e construiu a marinha mais poderosa do mundo para proteger rotas comerciais globais. No seu auge, entre 1850 e 1914, cerca de 60% do comércio mundial era denominado em libras. Tal como os holandeses, a Grã-Bretanha acabou por sucumbir ao sobre-endividamento, à perda de competitividade face à Alemanha e aos EUA, e ao custo insustentável de manter um império vasto. Apesar da vitória nas Guerras Mundiais, a Grã-Bretanha emergiu economicamente falida, e a libra foi progressivamente substituída pelo dólar americano.
A ascensão definitiva do Dólar Americano (USD) consolidou-se em 1944 com o Acordo de Bretton Woods, que vinculou o dólar ao ouro e as outras moedas ao dólar. Os EUA detinham, na altura, dois terços do ouro governamental mundial e metade da produção global. Este sistema funcionou até 1971, quando os EUA, enfrentando custos elevados com guerras e programas sociais, deixaram de ter ouro suficiente para cobrir os dólares em circulação. O Presidente Nixon quebrou então a ligação ao ouro, transformando o dólar numa moeda fiat (não convertível em ativos físicos), o que permitiu aos EUA imprimir dinheiro e criar dívida de forma ainda mais agressiva (continua no artigo da próxima semana…).
