O Dilema do gestor: de Adam Smith a Warren Buffett

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  • Abril 24, 2026

 

Imagina que contratas alguém para cuidar do teu jardim enquanto estás fora. Será que essa pessoa terá o mesmo cuidado com as tuas flores que tu terias? Este é o cerne do chamado​​ "problema de agência", um desafio na governação das​​ empresas que​​ Adam Smith​​ identificou há séculos e que​​ Warren Buffett​​ procura resolver hoje através de princípios de parceria.

O Aviso de Adam Smith: o dinheiro dos outros

No século XVIII, em "A Riqueza das Nações", Adam Smith analisou o que chamava de "companhias de capital solidário", as antecessoras das nossas empresas modernas. Smith era muito cético em relação a este modelo. Ele observou que, nestas empresas, os diretores são gestores do "dinheiro de terceiros" e não do seu próprio. Por esta razão, Smith argumentava que não se podia esperar que estes gestores vigiassem esse capital com o mesmo rigor com que os sócios de uma empresa privada cuidam dos seus próprios bens.

Para Smith, o resultado inevitável desta separação entre quem é dono e quem gere era a "negligência e o esbanjamento".​​ Smith ilustrou esta tese com exemplos de grandes companhias que, apesar de terem privilégios exclusivos, acabaram frequentemente em má gestão ou falência devido ao desinteresse dos seus administradores pela prosperidade real do negócio a longo prazo.

 

O Paralelismo moderno: o imperativo institucional

Se olhares para o presente, perceberás que o problema se mantém. Warren Buffett nota que muitos gestores modernos sucumbem ao que ele chama de "imperativo institucional". Esta é uma força invisível que leva as instituições a resistirem a qualquer mudança de direção, a desperdiçarem fundos em projetos ou aquisições menos boas apenas para esgotar o capital disponível e a imitarem cegamente o comportamento de outras empresas do setor. Muitas vezes, a administração torna-se um ambiente onde a crítica ao desempenho do líder é vista como uma falta de etiqueta social.

A Solução de Buffett: pensar como um dono

Warren Buffett resolveu este dilema secular através de uma mudança radical de cultura. Nas suas cartas, ele explica que a Berkshire Hathaway não é uma corporação fria, mas sim uma "parceria". Buffett e o seu sócio, Charlie Munger, consideravam-se "sócios-gerentes" e tu, como acionista, eras visto como um "sócio proprietário".

Para garantires que os interesses estão alinhados, Buffett utiliza mecanismos muito práticos:

  • Seleção de caráter: ​​ Buffett procurava gestores que fossem capazes, honestos e que tivessem paixão pelo que fazem, dando-lhes uma autonomia quase total, permitindo que trabalhassem sem interferências desnecessárias da sede.

  • Incentivos corretos: Buffett criticava o uso comum de opções de ações que recompensam gestores apenas por "marcarem passo" enquanto os lucros retidos acumulam valor. Em vez disso, preferia bónus ligados diretamente ao desempenho da unidade específica que o gestor controla.

  • Comprometimento real: Buffett preferia gestores que tinham uma fatia significativa do seu património investida na empresa. Ao usarem o seu próprio dinheiro, estes gestores passam a "caminhar verdadeiramente nos sapatos dos donos".

Em suma, enquanto Adam Smith via com desconfiança a capacidade de um gestor cuidar do capital alheio, Warren Buffett demonstra-te que é possível superar essa negligência histórica. O segredo, segundo ele, é​​ tratares os acionistas com total franqueza e criares um ambiente onde todos ajam como se a empresa lhes pertencesse.