A nova ordem mundial

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  • Janeiro 29, 2026

Vivemos tempos que parecem sem precedentes, mas que, sob a lente da história, são profundamente familiares. Na sua obra sobre a mudança da ordem mundial, Ray Dalio propõe que a história da humanidade evolui como uma máquina de movimento perpétuo, movida por causas e efeitos que se repetem através de "Grandes Ciclos" de ascensão e declínio das nações.​​ Atualmente, a convergência de dívidas massivas, conflitos internos e a ascensão de potências rivais sugere que estamos a viver uma mudança de paradigma novamente.

Nova ordem mundial: o que é, mudanças, teoria - PrePara ENEM

O modelo de Dalio descreve três fases.​​ A Ascensão é marcada por uma liderança forte que investe em educação e carácter, fomentando a inovação tecnológica e a produtividade. Este sucesso leva ao topo, onde a nação se torna rica, mas também cara e menos competitiva, acumulando dívidas excessivas para manter um estilo de vida decadente. Finalmente, o Declínio manifesta-se quando a fraqueza financeira se cruza com conflitos sociais e desafios externos, levando à reestruturação da ordem.

Olhando para os Estados Unidos, Dalio identifica que o país se encontra perto do estágio final do ciclo, caracterizado por condições financeiras adversas e um conflito interno intenso.​​ O país enfrenta o que o autor chama de "mix tóxico": dívidas governamentais crescentes, os maiores fossos de riqueza e valores do último século, e uma polarização política que ameaça a própria democracia. A impressão massiva de dinheiro para cobrir défices é um sintoma clássico de uma potência que tenta adiar o inevitável, desvalorizando a sua moeda no processo.

Pela primeira vez na história moderna, os EUA enfrentam um rival económico total: a China.​​ Enquanto a União Soviética era apenas um rival militar, a China desafia o domínio americano em quase todos os domínios, desde o comércio e mercados de capitais até à tecnologia de ponta. A atual guerra tecnológica não é apenas uma disputa comercial,​​ é uma luta pela sobrevivência estratégica, onde a inteligência artificial, o 5G e a computação quântica decidirão quem ditará as regras do futuro. A China, em rápida ascensão, utiliza a sua força económica para expandir a sua influência, criando laços de dependência que desafiam as instituições multilaterais criadas pelos EUA em 1945.

Neste cenário de desordem externa, a Rússia desempenha um papel crítico como potência militar disruptiva. Embora economicamente menor, o seu arsenal nuclear e capacidade de projeção de força tornam-na um aliado estratégico vital para a China.​​ Historicamente, quando duas potências rivais se unem para neutralizar a potência estabelecida, o risco de uma mudança violenta na ordem mundial aumenta. Por exemplo, a Rússia e a China estão a cooperar para desenvolver sistemas de pagamento alternativos ao dólar, atacando o grande privilégio de “moeda de reserva mundial” que o dólar goza.

Dalio identifica ainda cinco tipos de guerras que precedem frequentemente conflitos militares: comercial, tecnológica, geopolítica, de capital e a guerra propriamente dita. Atualmente, os EUA e a China já estão imersos nas quatro primeiras, com as tensões em torno de Taiwan a serem o "ponto de ignição" mais perigoso para a quinta: a guerra militar.

Em suma, o que estamos a testemunhar parece ser uma transição​​ lenta​​ de uma ordem mundial antiga para uma nova.​​ A evolução humana assemelha-se a uma estrada sinuosa: progredimos através de inovações tecnológicas que elevam o padrão de vida, mas os ciclos de dívida e poder garantem que esse progresso seja pontuado por tempestades de destruição e reconstrução.​​ Esperemos que esta transição não se faça à custa de vidas humanas.