A emergência da dívida

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  • Janeiro 22, 2026

Quando os Governos gastam o que não têm

A dívida pública é, historicamente, uma das grandes invenções da humanidade, permitindo que as sociedades enfrentem crises e invistam no futuro. No entanto, esta "magia" do crédito traz​​ consigo uma tentação perigosa que, quando ignorada por muito tempo, leva as finanças das grandes economias para um cenário de rutura.

Figura 1 — Evolução da dívida pública, em percentagem do PIB, em países desenvolvidos e emergentes desde 1900, com picos em guerras, crises financeiras e pandemia (fonte: IMF)

Atualmente, o mundo rico enfrenta uma realidade alarmante: a dívida pública bruta nas economias avançadas aproxima-se dos 110% do Produto Interno Bruto (PIB), níveis raramente vistos fora de períodos de guerra mundial.

O problema central não é apenas o montante acumulado, mas a velocidade com que continua a crescer.​​ Após décadas de dinheiro barato, a subida das taxas de juro iniciada em 2022 tornou o serviço desta dívida muito mais pesado. Hoje, os países ricos gastam quase o dobro em juros do que gastavam há poucos anos e, mesmo assim, continuam a pedir emprestado para cobrir défices que, em média, ultrapassam os 4% do PIB. Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais crítica, com um défice superior a 6% do PIB.

Vários fatores explicam este descontrolo.​​ Primeiro, as crises sucessivas​​ — como a pandemia de covid-19 e a invasão da Ucrânia pela Rússia — forçaram gastos massivos.​​ 

Segundo, vivemos o que as fontes descrevem como o peso das "sociedades envelhecidas". Com populações a viver mais tempo, os gastos com pensões e cuidados de saúde dispararam, criando uma pressão enorme sobre os orçamentos. O contrato social está sob tensão: uma classe média trabalhadora cada vez menor sente que está a financiar um Estado social generoso para uma geração de reformados cada vez maior.

Muitos políticos tentam acalmar os mercados prometendo que o crescimento económico, impulsionado pela Inteligência Artificial (IA) ou pela imigração, resolverá o problema. Contudo, as fontes alertam que isto pode ser uma ilusão. Embora a imigração ajude o PIB, ela cria pressão sobre as infraestruturas e os serviços públicos. Já a IA, embora possa aumentar a​​ produtividade, também pode elevar as taxas de juro reais devido à necessidade massiva de investimento em centros de dados​​ (maior procura por crédito faz subir as taxas de juro), tornando a dívida ainda mais cara de sustentar.

A história mostra que os países raramente pagam as suas dívidas através de excedentes orçamentais. Quando os governos ficam sem opções e os mercados de obrigações começam a exigir juros insustentáveis,​​ restam apenas saídas dolorosas: impostos muito elevados, incumprimento (default) ou inflação. A inflação é a solução mais provável, pois reduz o valor real da dívida, "limpando" o balanço do Estado à custa das poupanças dos cidadãos.

É consensual que existe um "superciclo da dívida" onde os governos se endividam durante décadas até que uma crise os force a limpar o sistema através de falências ou inflação. Países como o Japão (com uma dívida de 134% do PIB), Itália (127%) e França (108%) estão na linha da frente desta vulnerabilidade. Mas os EUA, a mais forte economia do mundo, também não está livre desse risco, como vamos perceber​​ nos​​ artigos que irei publicar​​ ao longo das próximas semanas.