A emergência da dívida
Quando os Governos gastam o que não têm
A dívida pública é, historicamente, uma das grandes invenções da humanidade, permitindo que as sociedades enfrentem crises e invistam no futuro. No entanto, esta "magia" do crédito traz consigo uma tentação perigosa que, quando ignorada por muito tempo, leva as finanças das grandes economias para um cenário de rutura.
Figura 1 — Evolução da dívida pública, em percentagem do PIB, em países desenvolvidos e emergentes desde 1900, com picos em guerras, crises financeiras e pandemia (fonte: IMF)
Atualmente, o mundo rico enfrenta uma realidade alarmante: a dívida pública bruta nas economias avançadas aproxima-se dos 110% do Produto Interno Bruto (PIB), níveis raramente vistos fora de períodos de guerra mundial.
O problema central não é apenas o montante acumulado, mas a velocidade com que continua a crescer. Após décadas de dinheiro barato, a subida das taxas de juro iniciada em 2022 tornou o serviço desta dívida muito mais pesado. Hoje, os países ricos gastam quase o dobro em juros do que gastavam há poucos anos e, mesmo assim, continuam a pedir emprestado para cobrir défices que, em média, ultrapassam os 4% do PIB. Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais crítica, com um défice superior a 6% do PIB.
Vários fatores explicam este descontrolo. Primeiro, as crises sucessivas — como a pandemia de covid-19 e a invasão da Ucrânia pela Rússia — forçaram gastos massivos.
Segundo, vivemos o que as fontes descrevem como o peso das "sociedades envelhecidas". Com populações a viver mais tempo, os gastos com pensões e cuidados de saúde dispararam, criando uma pressão enorme sobre os orçamentos. O contrato social está sob tensão: uma classe média trabalhadora cada vez menor sente que está a financiar um Estado social generoso para uma geração de reformados cada vez maior.
Muitos políticos tentam acalmar os mercados prometendo que o crescimento económico, impulsionado pela Inteligência Artificial (IA) ou pela imigração, resolverá o problema. Contudo, as fontes alertam que isto pode ser uma ilusão. Embora a imigração ajude o PIB, ela cria pressão sobre as infraestruturas e os serviços públicos. Já a IA, embora possa aumentar a produtividade, também pode elevar as taxas de juro reais devido à necessidade massiva de investimento em centros de dados (maior procura por crédito faz subir as taxas de juro), tornando a dívida ainda mais cara de sustentar.
A história mostra que os países raramente pagam as suas dívidas através de excedentes orçamentais. Quando os governos ficam sem opções e os mercados de obrigações começam a exigir juros insustentáveis, restam apenas saídas dolorosas: impostos muito elevados, incumprimento (default) ou inflação. A inflação é a solução mais provável, pois reduz o valor real da dívida, "limpando" o balanço do Estado à custa das poupanças dos cidadãos.
É consensual que existe um "superciclo da dívida" onde os governos se endividam durante décadas até que uma crise os force a limpar o sistema através de falências ou inflação. Países como o Japão (com uma dívida de 134% do PIB), Itália (127%) e França (108%) estão na linha da frente desta vulnerabilidade. Mas os EUA, a mais forte economia do mundo, também não está livre desse risco, como vamos perceber nos artigos que irei publicar ao longo das próximas semanas.
