A bolha das “dot-com”
Estar certo cedo demais: a lição de Warren Buffett antes da bolha das dot.com
Sempre que os mercados sobem durante vários anos seguidos, surge inevitavelmente a pergunta: a bolsa está cara?
Esta dúvida não é nova. No final dos anos 90, viveu-se um período muito semelhante ao atual, marcado por forte otimismo, valorização acelerada das ações e uma confiança quase cega no crescimento futuro.
Foi nesse contexto que Warren Buffett protagonizou um dos episódios mais mal compreendidos da sua carreira.
Figura 1 — O Nasdaq Composite atingiu o pico da bolha dot.com em março de 2000, perto dos 5.000 pontos. Depois disso, caiu de forma muito violenta e só voltou a aproximar-se desses níveis em finais de 2014 (fonte: Yahoo Finance)
Entre 1995 e 1999, os mercados norte-americanos, em particular o S&P 500 e o Nasdaq, registaram subidas expressivas. As empresas tecnológicas lideravam os ganhos, muitas vezes sem lucros, sem modelos de negócio sólidos e, nalguns casos, apenas com uma ideia e uma promessa. A chamada “nova economia” parecia justificar tudo: múltiplos elevados, prejuízos recorrentes e expectativas irreais.
Warren Buffett, através da Berkshire Hathaway, recusou alinhar nessa euforia. Continuou a investir apenas em negócios que compreendia, com fluxos de caixa previsíveis e avaliados a preços que oferecessem margem de segurança. Como consequência, evitou grande parte do setor tecnológico e manteve uma postura defensiva, com níveis elevados de liquidez.
O resultado foi doloroso no curto prazo. Durante vários anos, a Berkshire Hathaway teve um desempenho claramente inferior ao do mercado. Em 1999, por exemplo, enquanto o S&P 500 subia cerca de 21%, as ações da Berkshire caíam. Buffett foi criticado por analistas, comentadores e até por investidores, sendo frequentemente acusado de estar “ultrapassado” e de não compreender a nova realidade económica.
O que muitos não perceberam na altura é que Buffett não estava errado — estava simplesmente certo cedo demais. A sua decisão não foi uma tentativa de prever o momento exato da queda, mas sim uma consequência natural da sua disciplina de investimento. Para Buffett, quando os preços deixam de fazer sentido, a melhor decisão é não investir, mesmo que isso implique ficar para trás durante algum tempo.
A história deu-lhe razão. Entre 2000 e 2002, a bolha das dot-com rebentou. O Nasdaq perdeu cerca de 80% do seu valor e o S&P 500 registou um dos piores períodos da sua história. Muitas empresas desapareceram, outras nunca recuperaram, e inúmeros investidores sofreram perdas significativas. A Berkshire Hathaway, apesar de não ter sido imune à volatilidade, preservou capital de forma muito mais eficaz e saiu desse período numa posição financeira bastante mais sólida.
Esta história ilustra uma das lições mais difíceis para qualquer investidor: estar certo no longo prazo pode implicar estar errado durante vários anos. A disciplina tem um custo emocional elevado, sobretudo quando todos à volta parecem ganhar dinheiro facilmente. No entanto, a preservação de capital em períodos de euforia é muitas vezes o que permite aproveitar verdadeiras oportunidades quando o ciclo se inverte.
Hoje, muitos investidores voltam a fazer paralelos com o final dos anos 90. As valorizações são elevadas, os retornos estão concentrados em poucas grandes empresas e o otimismo é generalizado. Apesar de existirem diferenças importantes — nomeadamente empresas mais rentáveis e modelos de negócio mais robustos — a lição central mantém-se atual: o maior risco não é investir, é pagar demasiado.
A história de Buffett antes da bolha das dot.com não é apenas um episódio do passado. É um lembrete intemporal de que investir não é seguir modas, mas sim tomar decisões racionais, mesmo quando isso é desconfortável. Em mercados financeiros, como na vida, a paciência e a disciplina tendem a ser recompensadas — embora raramente no momento em que mais gostávamos.
