Porque é que a inflação continua a preocupar

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  • Janeiro 8, 2026

Porque é que a inflação continua a preocupar?

Nos últimos anos, todos ouvimos falar de inflação: preços a subir, juros mais altos e famílias a apertar o orçamento.​​ Depois do pico de 2022, quando a inflação rondou os 10% nos Estados​​ Unidos e na Europa, parecia que tudo estava a voltar ao normal. Mas a verdade é que a descida parou. Desde meados de 2023, a inflação americana tem-se mantido teimosamente perto dos 3% (e dos​​ 2.5% na União Europeia) e parece não querer aproximar-se dos desejados 2% definidos pela Reserva Federal (“Fed”), o banco central dos EUA.

Dois artigos recentes — um na​​ revista “The Economist​​ e outro na​​ Barron’s​​ — explicam esta dificuldade, e ambos chegam à mesma conclusão essencial:​​ o mundo mudou, e a inflação também está a mudar com ele.

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A economia mudou

Durante décadas, vivemos num modelo económico em que a inflação estava sempre baixa e estável. Essa era foi alimentada por três grandes forças: globalização, mão-de-obra barata e tecnologia que reduzia custos. Tudo isto pressionava os preços para baixo.

Mas hoje, aparentemente, o quadro é outro.​​ Muitas empresas estão a trazer fábricas de volta para os seus países, principalmente nos EUA, tentando reduzir dependências externas.​​ Esse movimento, chamado​​ reshoring, torna a produção mais cara​​ e, portanto, os preços tendem a subir. Ao mesmo tempo, em vários países desenvolvidos​​ há escassez de trabalhadores, fruto do envelhecimento da população e de mudanças na imigração. Salários mais altos significam custos maiores para as empresas, o que também empurra a inflação para cima.

Ou seja: o mundo deixou de ser naturalmente deflacionário. Agora é mais inflacionário.

A psicologia dos consumidores também mudou

Um dos pontos mais interessantes relacionados com este tema é que a inflação não é​​ apenas um assunto técnico — é também psicológico. Depois da pandemia, as pessoas ficaram mais sensíveis às subidas de preços.​​ A confiança na capacidade dos bancos centrais para controlar a inflação diminuiu, e qualquer choque — tarifas, aumentos de energia, perturbações na produção — transforma-se mais facilmente num ciclo de “preços persistentes”.

Se antes os consumidores acreditavam que a inflação baixaria naturalmente, agora esperam que ela continue elevada. E essas expectativas ajudam a mantê-la elevada: empresas ajustam preços antecipadamente, trabalhadores pedem salários mais altos, e tudo isto alimenta a inflação.

O peso da dívida pública

O problema não está apenas na economia, está também nas contas públicas.

Os EUA têm hoje uma dívida pública que poderá ultrapassar 120% do PIB, com custos de juros a caminho de 2 biliões de dólares por ano. Alguns países europeus também mantêm dívidas públicas elevadas, apesar da diminuição alcançada em alguns países periféricos (como Portugal e Grécia). Isto limita seriamente a ação dos bancos centrais. Porquê?

Porque​​ juros altos são um problema para quem deve muito dinheiro. Se, por exemplo, a Fed insistisse agressivamente em trazer a inflação até aos 2%, teria de manter ou aumentar os juros. Mas isso tornaria o serviço da dívida pública menos sustentável. Resultado: cresce a pressão política para que os juros caiam, mesmo que a inflação ainda não tenha regressado ao objetivo.

A isto chama-se dominância fiscal: quando as necessidades do governo passam a​​ condicionar as decisões do banco central. Nesta situação, uma inflação de 3% pode acabar por ser tolerada como “novo normal”. E os 2% podem ser mais um ideal do que um objetivo realista.

Com mercados de trabalho apertados, produção mais cara, consumidores desconfiados e contas públicas pressionadas, a meta de 2% de inflação tornou-se muito mais difícil de alcançar, principalmente nos EUA.​​ Mesmo sem admitir publicamente, a Fed poderá estar a adaptar-se a uma nova realidade em que a inflação média será mais alta do que antes da pandemia.

Para o cidadão comum, isto significa que: o custo de vida poderá continuar a subir mais rapidamente do que estávamos habituados; as taxas de juro dificilmente voltarão aos níveis ultrabaixos do passado recente; e a economia mundial está provavelmente a entrar num período de maior volatilidade e menos previsibilidade.

Em suma, os tempos são outros.