Melia Hotels International SA (MEL)

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  • Novembro 1, 2020

 

 

Principais resultados da análise

 

A Meliá Hotels International (MEL) é uma cadeia de hotéis espanhola, que gere 388 hotéis espalhados por 42 países diferentes, dos quais 49% estão instalados em​​ resorts​​ e 51% em cidades.​​ 

A MEL​​ continua a expandir a sua atividade investindo na abertura de novos hotéis. Em 2019 abriu 10 novos hotéis, a maioria dos quais no sudoeste da Ásia, nomeadamente no Vietnam e na China. A empresa prevê a abertura de vários hotéis ao longo da próxima década,​​ 80% dos quais ficarão localizados no Mediterrâneo, Caraíbas e sudeste da Ásia. A região da Ásia-Pacífico será a grande aposta da MEL para o futuro​​ – a empresa pretende​​ direcionar​​ 32% dos seus investimentos​​ para esta localização.

A MEL foi nomeada, em 2019, a cadeia de hotéis mais sustentável do globo, pela​​ Sustainable Investment Agency​​ SAM (S&P Global). O estatuto foi atribuído no âmbito de uma avaliação anual​​ que visa as melhores práticas de sustentabilidade na governança corporativa, na performance social e nas medidas de proteção ambiental implementadas pelas empresas.

O setor da hotelaria está a sofrer uma pressão sem precedentes, que levou a MEL a registar perdas milionárias no primeiro semestre de 2020. Mas a empresa tem condições para sobreviver a esta crise. Pesando todos​​ os riscos e oportunidades, obtemos um valor intrínseco de 3.77 €/ação.

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Uma imagem com mapa

Descrição gerada automaticamente

Distribuição Geográfica (R&C de 2019, MEL)

 

Plano estratégico

A empresa tem programado a sua gestão de acordo com planos estratégicos trianuais, sendo que o ano de 2019 foi um ano de transição. A MEL faz questão de realçar a​​ importância da chancela ESG (Environmental, Social, and Governance) na sua estratégia operacional, integrando fatores ambientais e sociais no seu processo de decisão. A empresa tem como​​ benchmark​​ a agenda de 2030 das nações Unidas, integrando-a na sua estratégia de sustentabilidade.

Um dos aspetos chave do novo plano estratégico de 2020-2022 é a criação de valor para os​​ Shareholders, onde a otimização dos ativos desempenha um importante papel. A MEL tentará aumentar o lucro por m2​​ dos seus hotéis rentabilizando ativos obsoletos ou em desuso, focando-se nos ativos que apresentam margem de melhoria, promovendo a proatividade nas suas equipas de gestão, entre outros.​​ 

A digitalização dos processos é a outra grande aposta do plano estratégico 2020-2022. A MEL pretende tornar o modelo operacional mais ágil e tornar os procedimentos mais transversais com a ajuda da digitalização. A empresa lançou, para esse efeito, o programa “Be Digital 360”, que está no centro do plano estratégico de 2020-2022.

“Brand”

A MEL é uma das empresas líder no segmento dos hotéis​​ premium​​ (tipicamente 5 estrelas) e​​ upscale​​ (tipicamente 4 estrelas).

A MEL tem 7 marcas diferentes a operar em resorts, tentando assim responder a diferentes tipos de clientes, nomeadamente aos que procuram experiências de lazer, de negócios ou ambas (existe uma área de negócio dedicada às duas experiências conjuntas, com o nome de “bleisure”, um neologismo formado pelas palavras “business” e “leasure”). Cada uma das suas marcas tem focos psicográficos (função do​​ comportamento social de um determinado grupo, como estilo de vida, hábitos, atividades, opiniões) e demográficos específicos, respondendo aos diferentes tipos de procura.

No segmento​​ premium​​ (10%) a MEL apresenta as marcas Gran Meliá, Paradisus e ME. No segmento​​ upscale​​ (46%) apresenta as marcas Meliã e Inside. No segmento​​ midscale​​ (38%) apresenta as marcas SOL e TRYP.

 

Modelo de negócios

O modelo de negócios da MEL integra um número de hotéis próprios (13%),​​ e hotéis arrendados​​ em que a MEL é​​ responsável pela gestão do hotel (33%). A empresa também presta serviços de​​ management​​ em hotéis de outras marcas (39%), e possui uma carteira de franchisados onde outro proprietário opera com uma das marca da MEL e utiliza os seus canais de vendas (14%).​​ 

32% do total de receitas do hotel provêm dos serviços de F&B (“Food and Beverage”), pelo que a empresa direciona uma parte importante dos seus esforços para esta área. Esses esforços estão focados na inovação das refeições e no sucesso das parcerias que mantem com parceiros de referência, como chefes de renome e grupos de​​ catering​​ reconhecidos. Em 2016, a MEL criou uma espécie de incubadora de gastronomia, onde testa projetos inovadores de culinária em parceria com outros empreendedores.

Geografia

A MEL está presente em cinco grandes regiões: Espanha, EMEA (Europa, Oriente Médio e África), Américas, APAC (Ásia-Pacífico) e Cuba. A maior parte das suas receitas (49%) provêm da região de Espanha, sendo que o restante tem origem nas regiões de EMEA (24%) e Américas (25%).

O turismo parece ter atingido a maturidade em Espanha, apresentando taxas de crescimento modestas abaixo da taxa de crescimento da economia. A Melia Espanha registou um crescimento de 1.7% do RevPar (volume total de receitas a dividir pelo número de quartos disponíveis, nos segmentos​​ owned, leased e managed) sustentado pelo maior crescimento nos hotéis de cidade.

Na região EMEA o RevPAR cresceu 1.2%, sustentado por um crescimento de 6% em Itália, de 2.4% na Alemanha e de 1.5% no Reino Unido. Em França o rácio decresceu, em parte devido ao impacto causado pelos protestos dos coletes amarelos e pela greve geral que ocorreu no final de 2019.​​ 

Nas Américas, o RevPAR decresceu 7.1%. O negócio foi negativamente impactado por questão geopolíticas e ambientais no México, nomeadamente pelo aparecimento de grandes quantidades de sargaço nas praias (alga flutuante, que tem forte presença no golfo do méxico) e pelo aumento da insegurança na zona turística de Cancun. A República Dominicana também foi afetada​​ por publicidade negativa gerada nos EUA, sem fundamento segundo a MEL, que levou a uma drástica redução dos turistas no segundo semestre do ano.

 

Indústria

O ano de 2019 na indústria do turismo ficou marcado pela falência de alguns​​ players​​ de renome, como​​ a​​ Thomas Cook, e por circunstâncias geopolíticas complexas como o​​ Brexit, a guerra comercial entre EUA e CHN ou o abrandamento económico. Algumas situações de caracter mais temporário e localizado afetaram também a indústria, como a invasão do sargaço (já​​ referido) ou a polémica em volta da segurança dos turistas na República Dominicana (já referido). Apesar disso, o GDP do setor do Turismo subiu 3.6% em 2019.

Embora o turismo tenha atingido a maturidade em algumas zonas do globo, a área internacional apresenta ainda um grande potencial de crescimento – estima-se que a proporção da população mundial que usufrui do turismo internacional seja de apenas 3,5%.​​ 

A europa é o destino mais visitado do mundo, mas é na Ásia e no Pacífico onde se estima a maior margem de crescimento, devendo superar os 6% ao longo dos próximos anos.

O Turismo assume hoje um papel fundamental na geração de emprego e de riqueza mundial. Não obstante, o setor está exposto a riscos de várias naturezas. A MEL destaca três riscos de carácter global:

- Riscos geopolíticos relacionados com o Brexit, a guerra comercial, alterações das taxas de câmbio entre outros;

- Riscos relacionados com a incerteza económica a nível nacional ou internacional;

- Riscos ambientais, relacionados com as mudanças​​ climáticas, furacões, vulcões, tremores de terra entre outros.

A indústria do turismo foi particularmente afetada pela pandemia, registando receitas praticamente nulas no período do confinamento total. No ano de 2020 serão registadas provavelmente as maiores perdas da história da indústria. A estratégia passa agora pela aposta no turismo doméstico, tendo em conta os condicionamentos das deslocações internacionais.​​ 

O primeiro semestre de 2021 deverá ser ainda um período difícil para a industria hoteleira,​​ sendo de prever alguma recuperação ao longo do segundo semestre de 2021. Mas será preciso esperar até 2022 provavelmente, para se poder assistir a uma forte recuperação do setor.

 

Vantagem competitiva

A presença internacional da MEL atribui uma certa​​ vantagem competitiva face às cadeias de menor dimensão, na medida em que está menos exposta aos riscos locais. O ano de 2019 exemplifica bem essa vantagem: apesar das crises que se fizeram sentir em algumas das suas localizações mais importantes (já mencionadas), a MEL foi capaz de manter os lucros dos anos anteriores.

O facto de apresentar 7 marcas distintas, com público-alvo distinto, contribui para a resiliência do negócio. Por exemplo, a queda do turismo familiar num determinado período pode ser compensada por uma subida no turismo de negócios.​​ 

O estado avançado de digitalização dos processos da empresa será certamente outra das vantagens competitivas da empresa. 70% do total de vendas são efetuadas através dos canais digitais da MEL, o que aumenta as receitas por via de um processo de marcação mais simples, e aumenta a margem de lucro por via da redução dos custos.

Finalmente, o balanço entre os serviços de​​ management​​ e a gestão dos hotéis próprios suaviza o caracter cíclico do negócio.

 

Management

A empresa foi fundada em 1956 por Gabriel Escarrer Juliá, atual​​ Chairman​​ da companhia, quando tinha apenas 21 anos. O negócio começou com a aquisição de um hotel de 60 quartos na ilha de Maiorca, o local onde nasceu e onde está sediada a empresa​​ nos dias de hoje. Sob a liderança​​ de Gabriel Escarrer Juliá a empresa teve um percurso assinalável, expandindo-se para mais de 40 países e tornando-se numa das maiores cadeias hoteleiras do mundo.

A segunda geração da família entrou na gestão da empresa nos anos 90, sendo Gabriel Escarrer Jaume, um dos seis filhos do fundador, o atual vice-presidente e CEO da empresa. Jaume é graduado em finanças e gestão de empresas, sendo apontado como o responsável pela transformação tecnológica da empresa, que é considerada uma das chaves da sua competitividade atual.

A família Escarrer é detentora de 52% da MEL.​​ 

A administração parece estar alinhada com os acionistas, na medida em que tem vindo a aumentar a contribuição aos acionistas ao longo dos últimos anos, distribuindo o capital através de dividendos e recompra de ações (ver imagem seguinte).​​ 

 

Situação financeira

No primeiro semestre de 2020, a MEL apresentou um resultado histórico negativo de -358.6 M€, fazendo antever um ano desastroso para a empresa. O segundo trimestre foi o pior período na história da empresa, com abril e maio a registar volumes de faturação próximos de zero.

É de realçar que a empresa registou cerca de 147 M€ em imparidades. As imparidades tiveram impacto no resultado líquido mas não na liquidez, uma vez que se trata de uma transação não monetária.

Liquidez

Em plena segunda vaga da pandemia, a análise dos rácios de liquidez passou a ser um requisito obrigatório para a MyStockIdeas. Mesmo empresas lucrativas podem entrar em insolvência por​​ falta de liquidez. As empresas que se encontram nos setores mais expostos à pandemia, como a aviação ou a indústria hoteleira, apresentam o maior risco de liquidez atualmente.​​ 

Na análise da liquidez de uma empresa destacam-se dois indicadores:​​ Working Capital / Sales​​ e o​​ Current Ratio. Como seria de esperar, os rácios de liquidez da MEL desceram drasticamente no primeiro semestre de 2020.​​